Saúde publica
Em geral, quando nos referimos aos distúrbios do sono, é costume relacioná-los como um problema individual, mas isso não é verdade. Distúrbios do sono, principalmente a insônia, afetam negativamente a qualidade de vida, o desempenho na atividade diária no trabalho, escola e no lar, prejudicam a memória, aumentam o risco de acidentes e estão associados a condições médicas e psiquiátricas, tais como doença cardíaca e dor crônica, além de aumentarem as taxas de mortalidade.
Portanto, os distúrbios de sono causam alterações importantes em cerca de 30 % da população, o que o classifica como um problema de Saúde Publica, trazendo grandes gastos para governos e planos de saúde.
As doenças em geral (e os distúrbios do sono é uma doença) com o passar dos anos sofrem um modificação. Veja o que aconteceu com a incidência da AIDS: primeiro atingia na maioria das vezes os homossexuais, depois as mulheres e ultimamente atinge os mais idosos.
Embora os distúrbios do sono sejam reconhecidos como um problema de saúde pública, informações sobre a sua epidemiologia ainda são limitadas quando se trata de mudanças ao longo do tempo. Dados da América do Sul são escassos, quando comparados com os conhecimentos acumulados a partir de estudos realizados na América do Norte, Europa e até na Ásia. No Brasil, onde a medicina do sono está crescendo em importância, a ausência de tais informações é um obstáculo para os esforços de promoção da saúde pública.
Em 1987 e oito anos mais tarde, em 1995, dois inquéritos a todos os integrantes agregados familiares foram estudados, baseado no "Questionário UNIFESP do Sono". Nessas ocasiões foram realizadas analises estatísticas com o objetivo de estimar a prevalência das queixas dos distúrbios do sono entre os adultos que vivem na cidade de São Paulo, para avaliar as mudanças com o passar do tempo. Esta cidade brasileira, é cortada pelo Trópico de Capricórnio, é a maior cidade da América do Sul, com uma população estimada de 10 milhões de pessoas em 1987 e 1996 compostos por vários grupos étnicos. A cidade de São Paulo é uma das maiores aglomerações em todo o mundo, no ranking da 4 ª e 3 ª posições em 1987 e 1995, respectivamente, e estima-se que seja classificada na 2 ª posição em 2010 .
M.L.Pires e equipe multidisciplinar da Disciplina de Medicina e Biologia do Sono do Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP compararam as estimativas da insônia, sonolência excessiva diurna e parassonia (atividades físicas durante o sono, como sonambulismo) – essas foram as queixas das pessoas, obtidas em inquéritos realizados em 1987 e 1995. Além disso, foram analisados alguns aspectos relacionados ao comportamento do sono, como calendarização (insônia só no verão ou no inverno), duração do sono, consulta médica devido a problemas do sono, bem como a utilização de substâncias promotoras do sono.
Amostras de 1000 adultos residentes por inquérito foram entrevistados utilizando um questionário validado e estruturado como o "Questionário UNIFESP Sono". Foi constatado que a dificuldade em se manter o sono, dificuldade em dormir e dificuldade de despertar no início da manhã, ocorrendo, pelo menos, três vezes por semana, foram notificados em 1987 e 1995, por 15.8/27.6, 13.9/19.1, 10.6/14.2 por cento dos entrevistados, respectivamente, portanto um aumento significativo em todo esse intervalo de tempo. Estes problemas do sono foram mais freqüentemente encontrados entre as mulheres. As freqüências dos despertares de sono e sonolência excessiva diurna ficaram inalteradas comparando 1987 com 1995 (4,5 vs 3,8 e 3,1 vs 3,0%, respectivamente).
Queixas de parassonia mantiveram-se inalteradas, com exceção da síndrome da perna inquieta, que duplicou prevalência em 1995 em relação à prevalência de 1987 (2,6 a 5,8%). O ronco foi a mais comum parassonia (21,5% em 1987), relatado mais freqüentemente pelos homens do que pelas mulheres. O sonambulismo foi o menos comum (cerca de 1%). Além da duração do sono ser menor, os entrevistados foram dormir e acordaram mais tarde, em 1995. Aproximadamente 12% dos indivíduos de ambos os inquéritos tinham consultado um médico devido a problemas do sono e 3,0% relataram uso habitual de substâncias promotoras de sono em 1995. Globalmente, houve um aumento significativo das queixas de insônia, em 1987 e 1995 na população geral da cidade de São Paulo. Esta importante alteração, ao longo de um pouco menos de uma década deve ser considerada como um importante problema de saúde pública.
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