O medicamento da hipertensão

 A cronobiologia é a ciência que estuda os ritmos biológicos e seus mecanismos num período de equilíbrio, isto é, sem doença. O sono é considerado um ritmo biológico essencial ao corpo humano.  O período de equilíbrio é denominado homeostase. As diferenças conceituais entre homeostase e cronobiologia não são meramente acadêmicas. De uma perspectiva clínica, a homeostase implica que o risco ou a exacerbação da doença em seres humanos apresenta probabilidade idêntica em todas as horas do dia. De forma similar, a homeostase nos leva a esperar que a administração de medicamentos e a absorção dos mesmos sejam independentes de seu horário de administração. Resultados provenientes de investigações cronobiológicas desafiam esses princípios.

As variações durante as horas do dia da medicação são comuns a uma ampla variedade de doenças. Já foi constatado em inúmeros trabalhos científicos que os eventos cardiovasculares alcançam seu pico pela manhã durante as horas iniciais da atividade diária.

As alterações rítmicas que acontecem no coração e artérias podem causar diferenças no organismo durante as horas do dia ou da noite, tornando o indivíduo mais suscetível à ocorrência de doenças ou intensificando os sintomas de uma doença já existente.

L.F. Drager  e colaboradores cardiologistas do Hospital InCor de S.Paulo investigam a hemodinâmica e a regulação nervosa autonômica dos nervos do coração e das artérias durante o período da transição  entre o sono-vigília( entre o estado de sono e o despertar)  e também entre as   transições entre os diferentes ciclos do sono em pacientes com hipertensão essencial. Os autores reuniram 19 indivíduos livres de apnéia do sono (10 normotensas e nove hipertensos pareados cada um do grupo normal pela idade, sexo e índice de massa corporal). Essas 19 pessoas realizaram uma polissonografia do sono, com simultânea eletrocardiografia e monitoramento da pressão arterial correspondendo batimento-a-batimento num aparelho chamado de “Portapres”. Todas as medições foram realizadas ao mesmo tempo, no período de despertar (antes e depois do sono), bem como no início e no final do ciclo do sono (primeiro / último ciclo do sono NoREM  e na fases do ciclo REM( abreviação de  movimentos oculares rápidos em inglês). Essa fase REM é o período onde ocorrem os sonhos . Os autores constataram que a pressão arterial sistólica foi maior nos hipertensos e apresentou uma redução semelhante à normotensos na  fase  inicial do sono No REM . Esta redução foi devido a diferentes mecanismos: uma queda significativa do débito cardíaco em normotensos, enquanto que em hipertensos essa diminuição  também foi dependente de uma queda da resistência vascular periférica. Hipertensos apresentaram menor variação da freqüência cardíaca e atenuou a sensibilidade  do barorreflexo ( esse é um mecanismo normal que existe nos humanos, por ter ficado na posição ereta, que equilibra a pressão dentro das artérias na posição deitada) durante o sono, mas não imediatamente antes e depois do sono. Na análise dos dados obtidos, há uma sugestão de uma maior atividade  do sistema nervoso simpático no sono nas pessoas com hipertensão. Concluem os autores que  a hipertensão arterial esta associada com aumento da sensibilidade do sistema nervoso simpatico e o barorreflexo está diminuído nesse período de  ativação nervosa do sistema  simpático durante o sono. A maior predominância simpática no final da noite (que precedeu a ascensão matinal da atividade simpática) poderiam estar implicados na ocorrência de eventos cardiovasculares, graves e  até mortais.

 
PROFESSOR DR. JOSÉ KNOPLICH
Reumatologista, Doutor em Saúde Pública
pela Universidade de São Paulo, autor de vários livros,
dentre os quais o "Viva Bem com a Coluna que Você Tem", na 31ª edição com 190 mil livros vendidos.
http://knoplich.sites.uol.com.br
 
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